“A sorte também dá trabalho”

Entrevista a Ana Borges, Vice-Presidente das Aldeias SOS.

A-sorte-tambem-da-trabalho-1-omniagirls

Em todo o mundo, é hoje assinalado o Dia Humanitário. Porque não ficamos indiferentes, entrevistámos, a vice-presidente das Aldeias SOS. Ana Borges é designer de interiores, mas é na conjugação da arte da decoração com a mestria dos abraços que gere o seu dia-a-dia. Ligada há 11 anos a este projecto, acredita que dar aos outros é, acima de tudo, uma forma de estar na vida. A força que transmite e a sua expressão no olhar inspiram: Ana Borges lembra-nos que, apesar de todos querermos atingir o sucesso, “a sorte também dá trabalho”, mas que as suas recompensas valem o caminho percorrido. Entre conversas de longas horas e burocracias necessárias, as Aldeias SOS ajudam muitas crianças diariamente. E foi precisamente por saber como as pequenas coisas fazem a diferença que a OMNIA lançou uma colecção solidária e que hoje, está prestes a lançar uma nova linha. Em breve, todas as novidades estarão por aqui…

Fique atenta, vamos revelar tudo em breve!

Faz parte do projecto das Aldeias SOS. Como chegou até aqui?

Eu fazia voluntariado numa casa de acolhimento temporário, onde estava, na altura, o meu afilhado. Depois ele passou do acolhimento temporário para um projecto de vida definitivo, que, em tribunal, definiram que iria para as Aldeias SOS. A única forma de eu continuar a acompanhar aquele menino, que já tinha perdido tanto, era dar este passo. Na altura até foi a directora da casa, de onde ele ia sair, que me disse “o menino gosta tanto de si, vocês estão tão ligados que, apesar de eu saber que vamos perder uma voluntária aqui, sei que ele ganha uma madrinha se o acompanhar nesta nova etapa”; isto porque lá (nas Aldeias SOS) existe um sistema de apadrinhamento. Eu pensei no assunto e este era realmente o elo que eu podia dar. Então, inscrevi-me como voluntária nas Aldeias SOS, fiz o apadrinhamento do menino e eu e o meu marido fomos também padrinhos religiosos. O menino na altura tinha 7 anos, hoje tem 18, portanto, foi há 11 anos que eu entrei para as Aldeias SOS e acabou por ser um pouco por acaso.

Hoje em dia é mais do que voluntária…

Sim, o processo foi crescendo e passei a apadrinhar mais crianças. Acabei por me candidatar também à direcção, com um grupo de pessoas e fomos eleitos. Agora, integro o conselho directivo. Este cargo, para além de voluntário é renovado de quatro em quatro anos. Há sempre um grupo que assume a direcção, e é sempre voluntário. Esta dedicação dá imenso trabalho, mas acima de tudo dá uma enorme satisfação.

Ao fim de onze anos neste percurso, o que é que mudou em si?

Mudou muita coisa. Primeiro mudou a minha noção de tempo. Apesar de achar que nunca tenho tempo para nada, e de ter uma vida completamente alucinante, e de o meu marido às vezes até me dizer “eu não sei como é que tu aguentas”, eu percebi que quando queremos muito, aguentamos sempre mais um bocadinho. E quando é em prol de uma boa causa, em prol dos outros e dos que precisam, nós conseguimos fazer sempre um bocadinho mais de esforço. O nosso limite nunca é o que nós achamos que é.

Qual é a sua noção em relação à boa vontade e aquilo que é o voluntariado hoje em dia?

Acho que todos nós podemos fazer um bocadinho mais pela sociedade e, se todos fizermos mais, ainda que aos poucos, tudo acaba por ser diferente. Não podemos desistir por pensarmos que vamos fazer “só um bocadinho”. Ás vezes, é o que basta; E, se todos tivermos um compromisso com a sociedade, se tivermos esta filosofia de vida de ajudar os outros, nós próprios, em certas atitudes, acabamos por ser melhores. É um pouco como a lógica da energia : ”Se formos bons, atraímos pessoas boas”.

Quem são as crianças que a organização apoia?

Variam bastante de projecto para projecto. Temos aquele a que chamamos “o projecto de vida definitivo”, temos as três aldeias e temos um sistema paralelo de fortalecimento familiar que visa dar apoio a famílias sinalizadas, antes de lhes serem retiradas as crianças. No fundo, apoiamos várias crianças, de várias culturas e em vários contextos (na aldeia ou nas suas próprias casas), mas são sempre crianças que precisam de ajuda.

O que acha da parceria com a OMNIA?

Sempre que preciso de alguma coisa, ou que quero algum produto, procuro sempre quem faça estas parcerias sociais. Para além de achar que os produtos da OMNIA são muito bonitos e criativos, considero que retratam bem a nossa essência. Tenho uma família enorme e quando quero dar presentes até o tempo e a criatividade escasseiam, então, no natal passado, os presentes foram todos OMNIA e o facto de ter ainda uma história nossa por detrás da oferta torna tudo ainda mais especial.

Na OMNIA aplaudimos sempre todas as mulheres de sucesso e mães carismáticas, com muita perseverança. Enquanto Omniagirl, como se define? 

Eu não gosto muito de me definir (risos). Não sou muito modesta, mas também prefiro que falem de mim do que ser eu própria a fazê-lo. Mas posso dizer que sou muito solidária, muito comunicativa, de muito bom tracto e bom feitio, mas, às vezes, sou um bocadinho voluntariosa de mais, quero muito fazer muita coisa, chegar aos objectivos, “tocar todos os burros”, como se costuma dizer, e isso faz-me despender muita energia, energia essa que retiro do meu “eu” enquanto mulher. Portanto, o que dou aos outros acabo por não ter para mim. Sobra muito pouco. Mas sinto-me muito bem. Ainda ontem entreguei uma obra e a cliente pegou-me ao colo e disse: “ você vale ouro; Não vale ouro, vale diamantes!” e isso acaba por ser muito, muito gratificante. Sou muito activa. E só consigo conciliar tudo porque tenho muito apoio do meu marido, a nível de trabalho e até de gestão do lar. Apoia-me imenso e reconhece sempre o que eu faço. Eu trabalho, no mínimo, 12 horas por dia, em dias normais. E, muitas vezes, ao fim de um dia de trabalho ainda tenho as reuniões de direcção e é realmente cansativo, se não tivesse ao meu lado alguém que me apoiasse seria muito mais complicado. Mas acho que há idades para tudo e eu estou numa idade em que tenho energia para conciliar as coisas.

Enquanto decoradora quais são as características que a diferenciam?

Faço sempre trabalhos personalizados. Adapto-me às pessoas, não faço um trabalho para mim. Gosto muito de conhecer as pessoas, falar com elas, perceber onde e como se sentem bem, e as coisas têm corrido da melhor forma. As pessoas gostam muito e, mais uma vez, é o profissionalismo que me rege. Porque apesar de se falar de crise e de falta de emprego, na nossa empresa estamos completamente em “contramão”, felizmente. E como nos referenciam bastante, temos sempre pessoas interessadas no nosso trabalho. Eu acho que isso também só acontece porque, diariamente, depositamos toda a nossa vontade, espirito de sacrifício e entrega.

De todos os casos nas Aldeias SOS que lhe passaram pelas mãos, tem algum que queira contar-nos especialmente?

Há uma menina que tem mais seis meses que o meu afilhado, e que escreve. Faz poemas e até já os publicámos na revista da associação. Tenho uma relação afectiva muito forte com ela. Vai a minha casa, dá-me sempre novidades da vida dela. É muito bom ir recebendo esse feedback. Gosto muito de ser um exemplo, ou seja, se o facto de as pessoas contactarem comigo as ajudar nalguma coisa é bastante positivo para mim. Espero sempre que sejam felizes e que consigam alcançar o sucesso. E as mães nas aldeias vêem-me mais como uma amiga do que como um elemento do conselho directivo por isso tento transmitir que a força de vontade é o mais importante para lá chegar, porque mesmo a sorte dá muito trabalho…

O que é que faz um padrinho e o que é que precisa de fazer para o ser?

Tem de ser comprovadamente sensível, precisa de saber lidar com as crianças na aldeia e não pode abandonar uma criança à mínima dificuldade. Mas, para quem não quer assumir essa responsabilidade pode sempre ser voluntário, precisamos constantemente de ajuda, de todas as áreas.